a arte junto ao público

Rui A. Pereira

O mundo, cada vez mais massificado e sem rosto, em vez de valorizar a identidade cultural tende a estandardizar conscientemente todas as formas de produção, fundamentando a sua existência em objectos de consumo. Sendo um combate desigual, como é óbvio, a arte, no geral, tem um papel decisivo na resistência, como fenómeno de criatividade e liberdade de criação.

Pela mão de Teresa Cortez estamos perante um motivo que consideramos especial, uma temática que abordamos com muito gosto – o mural em azulejo.

Ela é, indiscutivelmente, uma forma singular de expressão, uma forma que se diferencia, inclusive, no próprio processo de execução, que consideramos de constante criatividade: peça por peça, azulejo por azulejo, a criação acontece sempre marcada pela diferença, num processo realmente avesso a qualquer normalização ou reprodução simples. Em conclusão, nenhuma das peças fabricadas é exactamente igual. O azulejo submete-se a todo um processo de produção artístico que está associado, inevitavelmente, à multiplicidade das suas variáveis: umas, mais dependentes do autor (o traço, o moldar, os valores cromáticos pintados e os tempos de cozedura), outras, mais dificilmente controláveis (reacções dos materiais aos diferentes valores de temperatura; reacções dos materiais entre si – uns misturam-se, outros justapõem-se, outros ficam mais vidrados e outros ainda ficam mais ou menos foscos).

Cabe à autora, à sua sensibilidade e opção, a maior ou menor expressão da futura obra: se mais esfuziante, formal e plasticamente, ou se mais sumária.

Com efeito, a ceramista molda e pinta, descrevendo o sentido natural do acto criador: aquilo que tem que ver com a sensibilidade do toque, com a definição das formas na terracota, trabalhadas pelos dedos, mas também com o volume que vai surgindo da superfície plana. Em síntese, são todos estes detalhes que determinam e caracterizam a obra cerâmica de Teresa Cortez.

Cruzamento da Rua Saraiva de Carvalho com a Rua Azedo Gneco, Campo de Ourique, Lisboa

Painel em azulejaria cerâmica policromada e relevada, abre-se ao nosso olhar no jardim da Igreja de Santo Condestável, no cruzamento da Rua Saraiva de Carvalho com a Rua Azedo Gneco. Esta é, em si, uma viagem por um tempo versado pela sua gente. É um trabalho que verbaliza, que narra simbolicamente, momentos significativos da sua História e fundamenta um todo colectivo, que marcou e marca o habitat daquele lugar. Com as raízes mais profundas, as que sustentam a essência social de cada lugar, relata acontecimentos de índole religiosa e da vida profana. Por aqui, respira-se cultura, sociedade, política e a dinâmica comercial que sustenta uma existência espacial com alento. O mural cerâmico em questão evidencia em todo o seu plano superior o porquê de um nome, o da Freguesia de Santo Condestável. Este, naturalmente, surge subentendido pela revolução de 1383/85, com a crise dinástica e o vislumbre da independência nacional. Santo Condestável de uniforme militar sinaliza a sua consagração como comandante do exército português, o que derrotou o exército castelhano na Batalha de Aljubarrota, e o que determinou a tomada do trono pelo futuro rei de Portugal, D. João I. Nesta narrativa é figurado, não só o Homem na sua acção político- -militar, mas também o D. Nuno Álvares Pereira que, na sua profunda religiosidade, se refugiou no Convento do Carmo, em Lisboa, até aos seus últimos dias. Recentemente canonizado, fez-se jus à sua fama de Santo. No plano inferior, na outra metade deste painel, a artista vai patentear o casario, o edificado que se destaca como referência deste bairro, com o seu espaço e arte do domínio público. Ressalta o geomonumento, os moinhos, as chaminés industriais, o jardim da Parada, o quartel, a «carreira 28», o mercado, a igreja, o cinema Europa, a Casa Fernando Pessoa e, como corolário, o seu patrono, o Pessoa, mas também a presença de António Gedeão com o seu verso da Pedra Filosofal. Este painel de azulejos concentra um conjunto de representações que se destacam, mais ou menos, em função da sua escala, da forma que adquiriram com a pintura cerâmica e o maior realce ao ganharem o alto-relevo. Esta obra requer, de facto, uma grande atenção ao seu pormenor porque acolhe um conjunto de informação icónica por demais diversa. Podemos afirmar que o impacto visual deste trabalho é evidenciado por todo um jogo formal inerente à narrativa da própria obra e por um manchar colorido que delimita a sua extensão pictórica.

Rua Pascoal de Melo, n.º 3, Lisboa

No hall de entrada do edifício nº 3 da Rua Pascoal de Melo deparamos com dois painéis cerâmicos de Teresa Cortez, coexistindo lado a lado. Num deles, de maiores dimensões, descobrimos rostos circulares, linhas curvilíneas, formas redondas, o sol, outros sóis, cabelos em movimento ondulatório, ondas do mar, o azul-água e uma pomba branca. Este é um encontro com a natureza mais esvoaçante e livre que assevera a estação do ano mais soalheira. Lábios sorriem e os seus olhares são pontos que, dois a dois, nos convocam para aquele momento agregado. Este é um painel cerâmico que junta a cor ocre mais intensa com o azul mais tranquilizante.

No outro painel, no mesmo espaço, transita um todo com formas quadrangulares distintas. Apesar de, na sua aparência global, o resultado final desta obra ser a soma justaposta, azulejo a azulejo, na verdade, cada mosaico que aqui se apresenta, tem uma configuração e uma aplicação formal que age segundo a dinâmica de um puzzle. É uma obra profundamente orgânica, com contornos abstratizantes que, no seu manchar, com tons azuis, amarelos e no branco assumem um vidrado pictórico táctil, como a pele de um corpo cerâmico. Ao centro, Teresa Cortez circunscreve uma forma indefinida com contornos redondos que se delimitam em vértice. Esta peça sugere a vida de um pássaro, as pétalas de uma flor, formas da natureza ou simplesmente formas circulares e linhas verticais que se descobrem e que coincidem neste corpo sem, no entanto, definirem uma identidade própria.

Avenida da Liberdade, n.º 144/146, Lisboa

Dois jarros em alto-relevo e longos caules , que espontaneamente brotam na atmosfera livre… que por ali se respira, na avenida com longos jardins que percorrem todo este lugar, mas também nesta planta corpulenta e sedutora, com as suas folhas faustosas de colorações diversas, nas suas duas faces, apresentando-se, por isso, como se fosse um casal que se expõe com grande vaidade! Os verdes claros e escuros alternam com o azul petróleo, mas sucedem-se o laranja e o rosa… E outras mais, porque nos confrontamos, realmente, com uma escala cromática com grandes variáveis luminosas no vidrado.

As placas cerâmicas com o gretado têm a aparência da pele, dos seus poros, da terra gretada, fundindo-se nesta plasticidade geral, que é única. Embora aparentemente contida, é conseguida, sem dúvida, tecnicamente com mestria. Podemos constatar também que cada placa cerâmica tem o seu desenho irregular e que, no entanto, tudo parece homogéneo: os pormenores distintos aumentam especialmente a beleza da intensidade plástica – um painel cerâmico que atinge, indubitavelmente, o encantamento romântico próprio duma representação ornamental da natureza. Podemos dizer que tudo foi idealizado como um espaço cénico e dois actores, os jarros, que representam os papéis principais.

Hospital Privado de Braga

São inequívocas representações de expressividade de um amor flamejante! A artista compõe segundo um jogo formal, todo ele inesperado: soma placas cerâmicas com corpos e tamanhos distintos, ilustra com planos cheios pintados e outros mais lineares – alguns corações parecem ser o positivo/negativo do outro, isto é, uns são compostos por rosas e outros são as rosas que delimitam a fronteira do coração, um coração despido de elementos florais. Encontramos também no seu trabalho placas cerâmicas sobrelotadas de formas e de cor, e outras, com formas mais pequenas e dispersas no fundo branco marfim. O efeito geral criado, nesta festa de vida, é ritmado segundo uma cadência formal assimétrica e, portanto, não existe uma base estruturante uniforme; por isso mesmo, é possível a Teresa Cortez expressar a diversidade de representações do mais íntimo do ser humano: o coração, o mesmo coração que também se expõe neste hospital e que bombeia a vida de muitas vidas e de outras mais que por aqui passarão! O coração é a vida…A alegria plena!

Hospital Privado da Boa Nova, Alfena

Um painel mural de azulejos, de 14x14cm cada um, que se repetem no trabalho de pormenor, uma obra que nos mostra algumas diferenças na forma e no tratamento da cor.

As linhas formais definidas pela mão que as pintou são espontâneas – sente-se facilmente o gesto e a mancha expressiva do traçado.

As pequenas formas esféricas sobrepostas, com os também pequenos discos circulares, fazem-nos pensar no mundo das guloseimas: rebuçados, chupa-chupas, biscoitos ou bolachas, mas, no meio de tudo isto, estão presentes os pequenos corações, as formas florais e muitas outras formas que são estrelas, pétalas, folhas e flores do mundo das florestas faustosas! A autora, ao fragmentar esta obra, compartimenta-a, mas, ao mesmo tempo, aglomera-a na diversidade do riscado, do moldado e dos seus valores cromáticos. Esta aparente desordem, porém, estimula todos os sentidos: liberta o olhar, o toque, o cheiro e o desejo de escutar os sons da natureza!

Hospital São Francisco Xavier, Lisboa

Quatro elementos essenciais compõem a natureza; quatro painéis cerâmicos individuais apresentados por Tereza Cortez: a água, a terra, o fogo e o ar. Estes elementos naturais são o suporte substancial para a manutenção da vida humana no planeta, e, por isso mesmo,

o facto de serem pronunciados num local que tem como razão de ser a luta constante para manter, prolongar e qualificar a vida e a saúde humana, é, convenhamos, uma intervenção artística mais do que ajustada.

Começando pela terra, a artista caracteriza a esfera com a água a azul e o solo com castanhos terra; e a terra vê emergir do seu útero um gigante tronco de árvore. A autora representa os seus ramos, as raízes e as folhas, a saírem do interior da própria terra. Mas aqui também se nasce, e noutro painel cerâmico é o sol que nasce para representar o fogo, com uma figura de perfil a olhar atentamente para o horizonte. Na representação do ar, temos a presença de um homem e de uma mulher que o respiram, e as pombas a voam bem junto das nuvens. Por último, a água e a representação das correntes, das ondas do mar, das quedas de água, água salgada e doce; e um ser aquático translúcido banha-se em águas que se pretendem límpidas. São quatro cenas, quatro momentos que Tereza Cortez soube marcar com uma grande sensibilidade estética e humana.

Hospital Privado da Trofa

Um painel mural de azulejos representando o céu azul claro a desvendar um amanhecer luzente e o escuro prenúncio do cair do dia, que se prolonga até ao anoitecer. No jardim, podemos desvendar muitas das cores do arco-íris, mas as pétalas das flores deste lugar são vermelhas e, por isso mesmo, as flores mais indicadas para connosco viajarem pela pigmentação sanguínea da vida.

As cores adoptadas são no geral vibrantes, contrastantes, quentes e frias, porque são a expressão da vida no universo. É, sem dúvida, um painel que reflecte optimismo – a força de viver, do bem-querer – e potencia valores como os da íntima amizade: o alento, o fôlego necessário para que a esperança não morra… enquanto a vida acontece por aqui!

Mercado do Lumiar, Lisboa

Oito nichos acolhidos na sua fachada, oito painéis de azulejo plenamente ajustados a cada um destes recantos. Estamos perante a representação de um mercado, mas a expressão da natureza campestre sobressai: o céu, a água, os amarelo-torrados, os laranjas, o calor do sol e o semeio do trigo, a cevada, o gado, os bois, os galos e as galinhas mães, procriadoras. Mas as flores surgem também em mais do que um painel, assim como os rasgos de luz e cor do arco-íris, que estão em todos os recantos cerâmicos, parecendo fazer jus à origem da palavra Lumiar: entrada de luz, soalheira! Com efeito, todos os figurantes que povoam estes painéis parecem querer passar de um lado para o outro, percorrendo todo o interior do mercado; mas outras casas estão ainda implícitas nesta história, e todas elas abrem as suas portas ao grande número de amigos, os peixes que parecem nadar em cardume, incessantemente, e as flores que cumprem o signo da vida, florindo todos os lares, contribuindo para o enriquecimento da visão última que nos fica, com todos os outros animais: a de um grande e inenarrável convívio!

Antigo Mercado do Chão do Loureiro, Lisboa

Situada noutro ponto de Lisboa, para os lados do Castelo de São Jorge, mais uma obra de arte pública da artista, um painel cerâmico criado com o mesmo cuidado de enquadramento, tanto quanto ao espaço da obra, como ao seu tempo estético: um lugar onde se sente o cheiro a cravo e a jasmim. Aqui encontramos os bairros populares das ruas estreitas, das travessas, do fado e, também, do aroma e paladar do peixe acabado de grelhar nas brasas do carvão. Estamos perante uma obra figurativa que, do alto deste edifício/mercado, avista, privilegiadamente, tudo o que acontece ali junto ao Tejo, no cais da Mouraria.

Mercado de Queluz

No painel exterior do mercado, a impressão que fica é que circulam manchas de cor em hiperactividade – umas são simplesmente linhas, outras manchas largas de cor e, por último, no seu topo parecem surgir salpicos de cor em contínua multiplicação. Por outro lado, no interior do mercado, encontramos uma natureza morta com frutos e legumes, donde brota o verde das folhagens que ressalta ao longo de todo o campo cerâmico. À semelhança do que ocorre no exterior, algo de magnético estimula os filamentos, e neste caso são as folhas a circularem para fora do seu suporte, querendo, aparentemente, abraçar todo o mercado, mas também os seus visitantes.

Av. Columbano Bordalo Pinheiro, n.º 85, Lisboa

A cena, inequivocamente, representa a criação de um universo espantosamente volátil: sente-se nela algo que nos reporta para a alquimia e a manipulação das substâncias químicas, como fim para se obterem novas substâncias. Este painel caracteriza, de alguma forma, o gozo duma quimera que transforma o sonho numa realidade possível… Teresa Cortez, neste sentido, recorreu ao auxílio do homem aqui figurado para soltar toda a fantasia que consigo convive… e, pelos vistos, harmoniosamente!

Escola Secundária Josefa de Óbidos, Lisboa

Um tapete vertical branco com duas faixas azuis a ocuparem toda a sua extensão lateral, com três quadrados ilustrados a distribuírem-se, de forma equitativa, no espaço cerâmico central: a terra, o fogo, o ar e a água. Perante estes elementos, cabe perguntar o seguinte: porquê três quadrados e não quatro, para cada um dos elementos que compõem a natureza? Porém, observando mais atentamente a narrativa de cada quadrado, facilmente chegaremos a uma resposta convincente!

Rua dos Douradores, n.º 3, Lisboa

Um tapete cerâmico ou um manto de retalhos, que ocupa, em toda a altura e comprimento, uma das paredes de uma loja no R/C, no centro de Lisboa. Este mural representa o somatório de um conjunto de formas geométricas, em especial de quadrados e triângulos coloridos, que proliferam e se justapõem segundo um certo dinamismo que emana de uma cidade alegre e luminosa. É uma obra que cheira a Lisboa!

Rua da Trindade, n.º 18, Lisboa (Interior)

A obra é organizada, formalmente, segundo linhas oblíquas, com algumas movimentações ondulantes que se cruzam e se misturam, confundindo-se com o próprio fundo, também ele em tons de azul. O amarelo, o creme, o ocre e o rosa, contribuem para realçar uma certa orgânica formal linear, que é dinâmica. É mais uma obra sustentada, primordialmente, por um desenho linear, mas cuja envolvente total se destaca pela sua força plástica, especialmente no tratamento da luz, da cor e variantes cromáticas. (O painel foi retirado deste local e actualmente desconhece-se o seu paradeiro.)

Rua Castilho, n.º 24, Lisboa

Um ano antes do 25 de Abril, Teresa Cortez é convidada para executar um mural de azulejos para o Banco Português do Atlântico, edifício actualmente a ser utilizado como instalações do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. Surpreendentemente, os sinais latentes desta obra parecem querer antever os anseios mais fortes duma nova e mais justa sociedade: a paz, o pão, a saúde, a solidariedade… De repente, o sol passou a ser o amanhecer da esperança e os cravos vermelhos quiseram abrir-se ao novo dia. A espiga será a representação do pão, mas no ventre da mulher parece nascer uma vida nova – é a singela ambição de voar num mundo mais fraterno e de paz. Este painel, executado na Fábrica Viúva Lamego, tem um significado especial para a autora porque enuncia uma vontade enorme de Liberdade… Em especial, no feminino!

© 2020 - 2021, Teresa Cortez