chegar ao Minho como quem regressa à infância

Paulo Sucena, Ensaísta e Crítico Literário

Teresa Cortez movimenta suas mãos antigas sobre matéria do mundo, num acto de purificação das coisas e de transmutação dos seres. O seu talento lida com a vertiginosa limalha que gesto a gesto subtrai ao vórtice da infância e inscreve-a na brandura da argila e é a invasão das rosas, dos escaravelhos e das libelinhas. Assim começa o lento transmudar de remotas paisagens da memória. Então os dedos de Teresa Cortez invadem o barro, exploram seres mudos e agudos meandros e plácidos iluminam o coração de rosas que não são o esplendor de ninguém debaixo de tantas pétalas. Rilkianas rosas, focos de luz sobre a mão que desenha a geometria do coração que o Minho reinventa na memorial filigrana que as filhas herdam das douradas mãos das mães.

E de súbito o milagre: digo rosas e é como se dissesse olhos que cheios de delicadeza desatam o voo das libelinhas e seguem o lento caminhar de escaravelhos, alimentados pelo suave respirar de rosas a aguardar vez para mergulhar no interior de jarras ingenuamente protegidas pela magnífica placidez de cães e de porcos, de coelhos e de pavões a assomar da plenitude das cores como quem, cansado do avaro tempo, se reclina à janela da infância.

© 2020 - 2021, Teresa Cortez